V Festa da Espeleo

V Festa da Espeleo

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Graças a esta importante iniciativa do GPS – Grupo Protecção Sicó, os espeleólogos portugueses (e não só!) puderam juntar-se em Ansião para mais uma produtiva confraternização que permitiu a troca de ideias e experiências, e a realização de actividades em conjunto.

O GPS está de parabéns pela festa e pelos seus 10 anos de salutar actividade espeleológica e associativa.

Complexo Cársico do Cabeço da Pedra do Sino

Complexo Cársico do Cabeço da Pedra do Sino

Artigos

por: Raquel Regala & Rui Fernando Luís

Resumo

O estudo que aqui se apresenta foi realizado pelos elementos da Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente – Torres Vedras, Portugal no decorrer de 1999/2000 e 2001.

Localizado na Maceira (Lisboa – Portugal), era constituído inicialmente por um conjunto de pequenas grutas (entradas), inseridas nos calcários do Vimeiro (Kimeridgiano superior), o qual veio a revelar-se após trabalhos de desobtrução e topografia num sistema de configuração ortogonal com 11 entradas e 900m de desenvolvimento. Iremos demonstar com este estudo que o complexo é de formação freática superficial.

Localização

O cabeço calcário (designado localmente por Cabeço da Pedra do Sino) onde está instalada a Cova do Texugo localiza-se no distrito de Lisboa junto ao limite dos concelhos de Torres Vedras e da Lourinhã encontrando-se no entanto dentro deste último, a SE da aldeia de Ribamar e a NNE da aldeia da Maceira, distando destas, em linha recta, cerca de 625 m e 1250 m, respectivamente.

Junto à vertente Este do cabeço observa-se a Falha da Lourinhã com direcção NNE-SSW. O acesso é normalmente feito a partir da Maceira, ao longo da margem da Ribeira de Ribamar, a qual desagua no rio Alcabrichel.

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Geologia e Geomorfologia da Região

A Cova do Texugo está inserida no topo da unidade Calcários do Vimeiro (pertencente às Camadas de Alcobaça) a qual aflora desde Casais dos Netos, a Norte, até próximo de Casais do Arneiro, a Sul.

Segundo o corte de F. P. Teixeira Silva, 1989, a unidade é constituída, da parte média-baixa para o topo, por calcários por vezes fortemente bioclásticos (algas calcárias), em geral com oncólitos e com grande abundância de macrorrestos, evoluindo o conjunto para calcários mais compactos e mais pobres em fauna. A sedimentação desta unidade, com uma espessura de cerca de 160 m, deu-se num ambiente francamente marinho, de pouca profundidade e de fraca energia, ainda que bem iluminado e oxigenado. Da base para o topo foram notadas oscilações nas características do ambiente marinho (fenómenos de regressão e transgressão da água do mar). Esta unidade está sobre um provável anticlinal salífero (MANUPPELLA et al., 1999).

A idade da formação Calcários do Vimeiro é atribuída ao Kimeridgiano superior devido ao estudo micrográfico do corte, realizado sob orientação de M. M. Ramalho, que identificou a presença de Alveosepta jaccardi Schrodt, Campbelliella striata (Carozzi) e Everticyclammina virguliana Koechlin (MANUPPELLAet al., 1999).

O afloramento constituido pelos Calcários do Vimeiro rodeia um vale tifónico, onde se situa a Maceira, originado pela extrusão das Margas de Dagorda datadas do Hetangiano, injectada na falha da Lourinhã. Os vales tifónicos, segundo a definição do eminente geólogo Paul Chauffat, são limitados por séries de falhas e têm o fundo levantado através dos terrenos mais recentes, e em contacto com estes, em todo o seu perímetro.

Estas áreas revestem-se geralmente de grande importância pelas nascentes hidrominerais que nelas brotam e pela presença de certos minerais, como gesso e sal-gema, entre outros factores (P. G. ANACLETO, 1965). Neste caso particular, o gesso aflora no núcleo do diapiro da Maceira /Vimeiro (G. C. FRANÇA et al., 1961) sem, no entanto, ser objecto de qualquer exploração.

Existe exploração, sim, de águas minerais pelas Termas do Vimeiro situadas no vale do rio Alcabrichel, efectuando a captação de duas nascentes, junto ao extremo SE do afloramento Hetangiano designadas por Rainha Santa Isabel e Fonte dos Frades. As águas da primeira emergem dos calcários enquanto que as da segunda nascente chegam à superfície pela falha de contacto entre as margas e os calcários.

Para além da falha da Lourinhã e do contacto diapírico observa-se ainda na carta um outro conjunto de falhas transversais à direcção da primeira. São os resultados de processos tectónicos e das fortes tensões a eles associadas, provocando também uma completa alteração na posição original dos estratos. Assim, ao longo do afloramento podem medir-se direcções e pendores muito diversos.

O cabeço onde está instalada a Cova do Texugo possui estratos que inclinam cerca de 15o para NW . A sua vertente Oeste é muito abrupta e o desnível de cotas da superfície do terreno, desde o seu ponto mais alto até ao leito dos cursos de água que ladeiam o cabeço, é apreciável pois, vai desde perto de 65 m até cerca de 35 m a Este e 45 m a Oeste, respectivamente.

O fundo do vale associado à vertente Oeste assemelha-se a um pequeno Canyon que se terá formado pela acção do rio. Existem lapiás de arestas arredondadas, à superfície, por cima do sistema subterrâneo, e no vale Oeste há uma zona de abatimento do tecto de uma cavidade que parece ajustar-se à definição de uma forma cársica designada por Canhão Cársico.

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Espeleogénese e Descrição das Grutas

O complexo em estudo detem uma extensão total de aproximadamente 900m de galerias de média dificuldade de progessão, seguindo as horientações da fracturação (diaclases) do estracto cálcário em que se insere. Estas horientações quase perpendiculares, promovem um rendilhado de galerias labirinticas porporcionando uma exploração complexa, apenas conseguida pelo suporte topográfico. O sistema possui na totalidade 11 entradas, que se subdividem em três zonas do Cabeço em Estudo.

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Na Zona Norte do cabeço, encontra-se a Oeste Cova do Urso. Gruta que atravessa o Cabeço de Oeste para Este, com galerias em forma oval/vertical com máxima altura de 8 metros. Medianamente concrecionada, aumentando para o seu interior, apresentando com frequência estalactites e estalagmites. Ao nivel do solo, os enchimentos de argila são frequentes na parte final da gruta. Esta gruta tem apenas ligação com a Cova da Chifruda, por intermédio de uma galeria muito estreita (20 cm) e alta (4m).

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A Cova da Chifruda (Zona Norte), possui uma entrada semi-vertical, e no seu interior um poço de 4m que garante o acesso para a mesma cota da Cova do Urso. No seu interior verifica-se a existência de galerias mestres (segundo as diaclases) e salas muito baixas, possuindo ainda inumeros depósitos de argila e zonas bastante concrecionadas. Esta gruta por sua vez, não apresenta qualquer ligação suficientemente ampla que permita a passagem para o restante complexo (Cova do Texugo e Pedra do Sino), apesar da próximidade 38me da idêntica disposição de galerias.

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Na Zona Central, e viradas para Oeste, estão presentes a Cova da Presa e Lapa do Meio. Estas duas grutas, de pequena dimensão representam antigas entradas para todo o sistema, encontrando-se neste momento obstruidas com argila consolidada de difícil desobtrução. Ainda assim, observam-se as galerias mestres orientadas para o interior do cabeço. Estas pequenas entradas apresentam-se com um enchimento de argila muito elevado ao nivel do solo. Também na Zona Central, mas a Este, existe a Lapa da Pulga; uma das 4 entradas a Este para o sistema principal de galerias. A Lapa da Pulga possui em toda a sua extenção e ao nivel do solo grandes quantidades de argila. A ligação para a Cova do Texugo é conseguida por intermédio de uma galeria com um desnível de 4m muito estreita (0.3m).

Conclusão

web-Complexo-Carscico-da-Maceira-Untitled-37aDada a configuração das galerias que compõem o sistema e este estar situado entre 2 linhas de água, somos levados a crer, que se formou inicialmente devido à variação do nivel freático associada à escavação do leito da ribeira de Ribamar (Shalow Phreatic or Water Table Theories – Swinnerton, 1932). Tal fenómeno aconteceu num periodo em que a linha de água que passa a Este se encontrava a uma cota bem mais elevada do que actualmente. Posteriormente com a acentuação do desnível da linha de água a Este, deu-se o alargamento de algumas galerias por acção mecânica, provocada por águas correntes. Pensamos também que a grande acumulação de sedimentos que se verifica ao longo de quase todo o complexo, ocorreu num espaço de tempo bastante curto (última camada muito espessa e homogénea), possivelmente devido à utilização agricola dos terrenos a Norte.

Bibliografia

MANUPPELLA G., ANTUNES M. T., PAIS J., RAMALHO M. M., REY J., 1999-Carta Geológica de Portugal. Notícia explicativa da folha 30-A-Lourinhã. Instituto Geológico e Mineiro.

ANACLETO P. G., 1965-Características geológicas e climáticas da região termal do Vimeiro (Torres Vedras). Boletim de Minas, vol. 2, nº 2: 67-74.

FRANÇA J. C., ZBYSZEWSKI G., ALMEIDA F. M. de, 1961-Carta Geológica de Portugal. Notícia explicativa da folha 30-A-Lourinhã. Serviços Geológicos de Portugal.

SEIFERT, H., 1963-Nota sobre a hidrogeologia do complexo calcário dos flancos do diapiro do Vimeiro;

Seifert, H., 1963-Relatório sobre a hidrogeologia e génese das águas do Vimeiro.

Fojo das Pombas - Fojo Sagrado - Alçado

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A execução deste trabalho permitiu-nos estabelecer contactos com a Câmara Municipal de Valongo, com o propósito de se tomarem medidas para a preservação dos fojos, tendo sído apresentada a aliciante de transformar as minas num polo de atracção turística, pois julgamos ser a única forma de puxar as atenções autarquicas. Com base na topografia está a ser estudada a viabilização de um percurso para o público, que não afecte a população de morcegos e outros biótopos, nem as possíveis áreas arqueológicas, tendo em conta a integridade histórica e estética da cavidade. Salienta-se o apoio que nos foi prestado pelo G.E.V.-Grupo Espeleológico de Valongo, na localização de algumas galerias, fornecimento de dados e bibliografia sobre os fojos e a Serra de Santa Justa.

Durante o tempo de execução deste projecto, o G.E.V. efectuou um esplêndido trabalho de remoção dos entulhos no interior da mina e colocou grades de eucalipto à entrada dos poços para dificultar os despejos. Discutimos com os elementos do G.E.V. questões relacionadas com a preservação e estudo das minas no seu conjunto e está em estudo neste momento uma cooperação entre estas associações para próximas em Valongo.

A Preservação

A realização deste projecto proporcionou uma grande quantidade de informações e documentos que podem vir a ser utilizados para a conscencialização sobre a importância do Fojo das Pombas em múltiplos aspectos.

As recolhas de imagens em vídeo e fotografia demonstram a magnificiência da mina e trazem à luz o deplorável espectáculo que são as zonas com despejos. Muitas destas imagens estiveram já expostas ao público na galeria municipal de Torres Vedras e nas Caldas da Raínha.

Durante os trabalhos, encetaram-se contactos proveitosos com o G.E.V., permitindo um esforço conjunto muito mais eficaz, uma vez que são comuns os objectivos de ambas as entidades no que se refere aos fojos.

Os contactos com a câmara Municipal de Valongo levaram a uma tomada de consciência da importância desse património por parte dos autarcas locais, germinando as ideias de preservação e aproveitamento turístico dos fojos e toda a área circundante. Desta forma, ficaram em aberto diversas novas iniciativas, de todo positivas para a área natural de Santa Justa.

Em suma, consideramos sem dúvida positivos os resultados obtidos, esperando que esta publicação seja um meio para alertar a todos a necessidade de preservar o espaço natural.